Olá pessoal. Conforme havíamos combinado, hoje vamos ao segundo artigo sobre aplicação de nitidez, onde falaremos sobre a nitidez de entrada. A nitidez de entrada é a primeira passagem de aplicação de nitidez que tem como objetivo reduzir a sensação de suavidade causada pelo filtro anti-aliasing da câmera, porém sem gerar artefatos que possam ser amplificados durante a pós-produção.
A nitidez de entrada está relacionada ao conteúdo da imagem, então sua aplicação dependerá dos elementos fotografados, da nitidez da câmera e das configurações utilizadas no momento da captura.
Como comentado no artigo anterior, as imagens em RAW, desprovidas de aplicação de nitidez na câmera, são suaves por natureza. Por este motivo, o Lightroom faz uma aplicação de nitidez em todas as fotos RAW importadas nele. Então, se você importar uma foto (RAW ou DGN) no Lightroom, perceberá que a configuração da aba DETAIL no módulo DEVELOP está assim: AMOUNT: 25 / RADIUS: 1.0 / DETAIL: 25 / MASKING: 0. Na imagem abaixo você percebe a diferença que esta aplicação faz em uma foto. A seção esquerda da imagem está sem aplicação de nitidez, enquanto a direita apresenta a aplicação padrão do Lightroom.

Em um programa como o Adobe Photoshop, onde diversas alterações possuem características destrutivas, recomenda-se que a aplicação de nitidez seja feita no ACR (Adobe Camera Raw – módulo do Photoshop que interpreta arquivos RAW) antes de qualquer outra alteração na imagem. No Lightroom temos a vantagem de seus processos não destrutivos, então cabe a você optar por fazer os ajustes de luminosidade e cromáticos na imagem antes dos ajustes de nitidez ou após. Particularmente, recomendo fazer primeiro os ajustes de luminosidade, pois muitas vezes você já conseguirá um ótimo ganho de nitidez com aumento no contraste da imagem, evitando assim exageros no painel DETAIL e surgimento de artefatos.
Para este artigo, partiremos de uma foto ‘autobiográfica’ já tratada no painel BASIC e Tone Curve, e com a aplicação de nitidez padrão do Adobe Lightroom.

Nos concentraremos nos quatro deslizantes na seção SHARPENING do painel DETAIL, que são os deslizantes responsáveis pelo controle de nitidez da imagem. O painel DETAIL conta ainda com alguns recursos interessantes e outros ‘secretos’ que podem ajudar sua vida. Vejamos o painel DETAIL:

O primeiro elemento deste painel é uma janela que lhe confere a visualização 100% da imagem. Esta visualização é bastante útil, pois permite que você visualize a imagem inteira no painel principal, o que lhe dá uma visão geral da aplicação, e também a visualização 100%, que lhe permite aferir a aplicação à nível de pixels. Melhor que isto, só tendo dois monitores (a não ser que você tenha a sua disposição o espaço e investimento necessário para ter dois monitores, não recomendo que você sequer experimente usar o Lightroom com 2 monitores… é simplesmente viciante, e uma vez experimentado, é difícil voltar atrás!).
A visualização 100% no painel DETAIL pode ser movimentada, bastante clicar dentro dela e arrastar para poder visualizar outras partes da imagem. Uma outra opção é clicar na “MIRA” no lado esquerdo da visualização. Clicando nela, seu cursor vira uma mira que permite que você selecione a área visualizada clicando diretamente na imagem principal, o que as vezes é muito mais prático do que ficar arrastando a visualização dentro de uma foto muito grande.
Um último recurso desta caixa de visualização é a possibilidade de visualizar a imagem em 200%, caso você queira ir fundo nos pixels da imagem (PixelPunch! Há!). Basta clicar com o botão direito do mouse sobre o quadro de visualização e selecionar o nível de zoom desejado, 1:1 para 100%, e 2:1 para 200%.
Entretanto, nem sempre esta visualização é suficiente para atender as suas necessidades ao aferir a aplicação de nitidez. Então recomendo que você não tenha receio de colocar a visualização principal em 100% sempre que sentir a necessidade.
Deslizantes do Painel Detail
Os deslizantes do painel DETAIL têm uma ordem específica. Claro! Em alguma ordem eles tinham de estar. Entretanto, a aplicação, aferição e correção de nitidez não é linear, e é muito provável que você precise ir e voltar nos comandos até chegar no resultado desejado. É importante ressaltar que todos os outros deslizantes dependem do deslizante AMOUNT, e se ele estiver em zero, os outros não tem efeito sobre a foto e ficam inacessíveis. Então, caso seu AMOUNT esteja em zero, você precisa subi-lo um pouco antes de mexer nos outros deslizantes… 25 é um bom ponto de partida, caso você pergunte.
AMOUNT (Quantidade)
O deslizante AMOUNT é o primeiro do painel DETAIL e é ele quem controla a força da aplicação de nitidez em sua imagem. Na medida em que você aumenta o AMOUNT a imagem fica visivelmente mais nítida e, com o aumento, mais ruidosa. Sua missão aqui é, basicamente, encontrar o ponto onde a nitidez fique boa sem adicionar ruído demais à imagem (isto é mais fácil em fotos com ISO menor do que naquelas com ISO alto). Se você estiver chegando perto do número 100 no AMOUNT em muitas fotos, talvez deva começar a se preocupar com algo que possa estar prejudicando a nitidez em sua imagem (objetiva, firmeza na mão, configuração de velocidade, abertura e ISO, e etc.).
Neste momento, seu objetivo é tornar a imagem agradável para visualização na tela. No artigo anterior mencionei que a nitidez ideal para imagens impressas sempre fica com a aparência de “exageradamente nítida” na tela, porém esta aplicação para impressão será feita na aplicação de nitidez de saída, não aqui.
Abaixo você vê a imagem com AMOUNT 0, no centro com AMOUNT 45 e no lado direito com AMOUNT 150 (o máximo do LR). Considerei o 45 o ideal para esta imagem, embora isto possa ser influenciado pelo gosto pessoal e você possa chegar a cerca de 70, nesta imagem, sem grandes problemas.

Se podemos chegar até 70 sem grandes adições de ruído, por que não fazê-lo? Porque nem sempre o que desejamos é atingir o máximo de nitidez. Cada foto é uma foto, e possui níveis de nitidez que podem torná-la mais ou menos interessante. Quando se trata de uma foto arquitetônica, uma textura, objetos mecânicos e etc, muitas vezes uma aplicação exagerada de nitidez tende a dar destaque à foto, enquanto imagens de tecido, retratos de pessoas e outras imagens de baixa frequência (bastante áreas suaves) tendem a ficar mais agradável com aplicações mais suaves de nitidez.
Então temos uma regra? Retratos com AMOUNT baixo e arquitetura com AMOUNT alto? Nem sempre. Abaixo temos um exemplo de como um AMOUNT alto somado à uma configuração alta de RADIUS podem ajudar a destacar as marcas do tempo no rosto de uma pessoa idosa.

Falando em RADIUS, ele é nosso próximo deslizante. Porém, antes de falarmos nele, há um truque secreto do Lightroom. Se você manter pressionada a tecla ALT enquanto clica e arrasta o deslizante AMOUNT, o LR converte a visualização principal para tons de cinza, o que permite a você aferir a aplicação de nitidez sem a influência das cores da imagem. Embora talvez seja a menos importante das aplicações da tecla ALT, ela é útil em algumas fotos com fortes cores e figuras geométricas.
RADIUS (Raio)
Lembra quando falei no artigo anterior que a aplicação de nitidez se dava nas “arestas” da imagem? E que estas arestas eram as linhas onde se encontravam áreas com níveis de cor e luminosidade diferentes? O deslizante RADIUS controla quantos pixels em torno destas arestas são inclusos no efeito da nitidez.
Quanto mais baixa a configuração RADIUS (min. 0.5), mais o efeito de nitidez se concentrará nas arestas, destacando assim detalhes pequenos. Na medida em que você aumenta o RADIUS (max. 3), o LR aplica a nitidez em uma área maior em torno das arestas.
O retrato que estamos utilizando em este artigo é considerado uma imagem de baixa frequência. Ou seja, é uma imagem com grandes áreas de transição suave e detalhes sutis. Em uma imagem como esta devemos utilizar um RADIUS mais alto, de modo que a transição entre as áreas que recebem a aplicação de nitidez e as que não recebam ficam mais sutis, e a aplicação mais homogênea em toda a imagem. Abaixo vemos a imagem com aplicação de RADIUS 0.5, depois 1.4 e então 3.0. O 3.0 serve apenas de exemplo, você raramente deverá passar de 1.7 no deslizante RADIUS, pois a partir daí o efeito de nitidez de uma aresta começa a afetar as outras causando artefatos visíveis.
Aferir a aplicação do deslizante RADIUS é um pouco difícil, e por isto o LR tem um segredo que lhe será muito útil nesta aplicação. Se você manter pressionado a tecla ALT enquanto clica e arrasta o deslizante o LR converte a imagem da visualização principal em uma imagem em tons de cinza. A maior parte da imagem fica em um tom médio de cinza, enquanto as arestas onde o efeito será aplicado recebe uma tonalidade contrastante que se amplia na medida em que o efeito está se expandindo em torno das arestas.

Quando você tem uma imagem de alta frequência (prédios com muitas janelas, grama, árvores com muitas folhas e etc.), a aplicação de RADIUS maior que 1.0 pode causar uma interferência entre as arestas, prejudicando a visualização de cada elemento como algo individual. Por isto neste tipo de imagem recomendamos RADIUS abaixo de 1.0. Normalmente 0.8 é uma boa medida, pois abaixo disto o efeito da nitidez pode ficar próximo ao imperceptível.

Na imagem acima podemos visualizar grama com aplicação de nitidez com RADIUS em 0.5, 0.8 e 3.0. Perceba como a aplicação em 3.0 aparenta uma perda de nitidez, na medida em que perde-se um pouco a nitidez nas arestas que individualizam cada lâmina de grama.
Além destes dois comandos, o LR ainda conta com dois comandos que servem para lhe dar mais controle na aplicação da nitidez, como veremos a seguir.
DETAIL (Detalhe)
Pense no deslizante DETAIL como uma espécie de extensão do RADIUS… só que enquanto o RADIUS define a aplicação da nitidez nas áreas amplas, o DETAIL controla aplicação em pequenas arestas. Segurando a tecla ALT, você tem uma visualização similar a do RADIUS, onde você pode controlar a aplicação da nitidez nas áreas de detalhes da imagem. O DETAIL é ótimo para controlar a nitidez em texturas de superfícies.
Ao contrário do funcionamento do RADIUS, uma imagem de baixa frequência como a que estamos utilizando pede por uma configuração baixa de DETAIL, enquanto uma imagem de alta frequência pediria uma configuração alta. O cuidado que se deve ter ao aumentar o DETAIL é evitar que a nitidez aplicada na textura dos objetos atrapalhe a visualização das arestas que compõe a forma do objeto em si.
Na foto que estamos utilizando o DETAIL ficou em 15, onde ele serve para destacar os detalhes nos lábio sem enfatizar demais os poros e marcas na pele. Marcas que poderemos controlar com o deslizante MASKING, outro controle importante para colocar sua aplicação de nitidez em rédeas curtas.
MASKING (Máscara)
O controle MASKING permite definir o quão contrastada uma área precisa ser para ser considerada uma aresta. Em configurações baixas, qualquer diferença de cor é considerada uma aresta, fazendo com toda a imagem recebe aumento de nitidez, enquanto em configurações altas a nitidez é aplicada apenas naquelas arestas com maior contraste de cor/luminosidade.
Este controle permite que você aplique a nitidez nos contornos de um rosto e impeça a aplicação na textura da pele, suavizando-a. Com o uso correto dele você pode suavizar gradientes, controlar o ruído em um céu azul, ao mesmo tempo em que mantém a aplicação de nitidez naquelas arestas que definem a forma dos objetos.
Ajustando o deslizante com a tecla ALT pressionada, o LR lhe dá uma imagem em preto e branco onde o branco indica onde a nitidez está sendo aplicada. Com isto, você pode controlar a aplicação. Em nossa imagem, precisamos ir deslocando o deslizante para a direita até que a aplicação esteja definida apenas nas arestas que desejamos. Ou seja, precisamos destacar apenas as arestas que definem as formas do rosto, nariz e olhos (incluindo o óculos), evitando as arestas que formam a textura da pele.

Fluxo de Trabalho
Como incluir isto tudo no seu fluxo de trabalho? Minha recomendação é que você crie PRESETS de aplicação de nitidez. Dois ou três são suficientes (eu uso apenas dois), de preferência um para baixa frequência (retratos e etc.) e outro para alta frequência (arquitetura e etc.). Assim você tem um ponto de partida que pode ser aplicado já no início do tratamento, para então, depois de fazer os ajustes de luminosidade e cor, fazer pequenos ajustes de nitidez até chegar ao resultado desejado (principalmente no controle MASKING, que você precisará ajustar em basicamente todas as imagens).
Meus PRESETS são:
Alta Frequência – AMOUNT 40 / RADIUS 0.8 / DETAIL 35 / MASKING 0
Baixa Frequência – AMOUNT 35 / RADIUS 1.4 / DETAIL 15 / MASKING 60
Lembre-se de, na hora de criar o PRESET, selecionar apenas os comandos de nitidez, de modo que eles possam ser aplicados sem interferir no restante do tratamento de sua imagem.
Abaixo segue a imagem com a aplicação de nitidez (AMOUNT 50 / RADIUS 1.5 / DETAIL 15 / MASKING 80). A imagem recebeu também a aplicação de nitidez de saída, para que se mantivesse nítida com a redução para aplicação no blog. Nitidez de saída será o assunto de nosso próximo artigo (no primeiro artigo falamos também da aplicação criativa de nitidez, que acontece entre a aplicação de entrada e a aplicação de saída, durante a pós-produção – porém, como é uma aplicação opcional, será deixada para o último artigo sobre nitidez).

Até semana que vem.